‘God bless America’ ou ‘Godless America’?
É quase consenso entre os especialistas políticos dos Estados Unidos que as campanhas eleitorais americanas estão batendo o recorde de bizarrice de todos os tempos tanto a nível nacional quanto local. A cada dia que passa, com a aproximação das eleições, novos comerciais aparecem na TV abordando os mais diversos – e geralmente desimportantes – temas que quase sempre beiram o desespero. É engraçado, mas nem um pouco benéfico para o processo eleitoral.
Na Carolina do Norte, por exemplo, a candidata republicana ao senado federal, Elizabeth Dole, lançou um comercial no qual ela acusa sua oponente, a democrata Kay Hagan, de não acreditar em Deus. Igualmente ao que acontece no Brasil – e em todo o mundo –, muitas vezes quando o político não tem mais tempo nem boas propostas, ele sai do campo da discussão e parte para o da acusação – quase sempre sobre temas que não têm nenhuma importância para a política. Da mesma forma que a Marta Suplicy este ano ‘sugeriu’ que o Kassab era homossexual para pregar um suposto moralismo e ganhar votos em São Paulo, Elizabeth Dole tem ‘incriminado’ Hagan de querer transformar um dos lemas do país, ‘God bless America’, em ‘Godless America’.
Já no lado democrata, a candidata a governadora da Carolina do Norte, Bev Perdue, lançou uma propaganda eleitoral na qual ela acusa o republicano Pat McCrory de querer dividir o estado, já que ele supostamente é contra qualquer tipo de investimento na área rural. De maneira bastante irônica, o comercial conclui que “McCrory não é para todos nós”.
Apesar de alguns comerciais serem negativamente incríveis ao ponto de não ser possível imaginar algo ainda mais apelativo, os candidatos espantosamente conseguem se superar e aparecem com uma resposta ainda mais bizarra no dia seguinte. E essa está sendo uma das maiores marcas das campanhas presidenciais deste ano.
Além de acusar Obama de mulçumano e socialista, um dos programas de McCain vende a idéia de que o democrata pretende incluir educação sexual na grade das escolas americanas para as crianças do jardim de infância. “Aprender sobre sexo antes de aprender a ler?”, eis a questão levantada pelo comercial.
Já no lado democrata, não só a campanha de Obama tenta encontrar todas as formas para vincular o candidato republicano ao atual presidente, George W. Bush, mas também sugere em uma determinada propaganda, por exemplo, que McCain não sabe enviar e-mail. A habilidade de saber mandar uma correspondência eletrônica é pré-requisito para ser um bom presidente dos Estados Unidos? Isso realmente faz tão pouco sentido quanto o fato de John McCain afirmar que seria um melhor líder porque ficou preso e foi torturado em um campo de concentração vietnamita por cinco anos.
O maior problema da política – me parece que em qualquer parte do mundo – é paradoxalmente o fato de os candidatos fazerem campanha centrados em todos os assuntos possíveis, menos na própria política. É algo como, por exemplo, assustar uma criancinha no dia 31 de outubro com o argumento de que os monstros e bruxas são perigosos porque são ateus ou cafonas e não exatamente pelo fato de serem capazes de fazer-lhes algum mal qualquer. Se os políticos continuarem levando a campanha desta maneira, trazendo à tona assuntos que não acrescentam nada à vida política do país e que nem resolvem os problemas da população, os eleitores vão acabar entendendo a mensagem como uma espécie de pedido exatamente contrário ao que eles esperam: nem “God bless America” nem “Godless America”, mas “God, mess America”. A propósito, happy Halloween!
