Bob Dylan é um grande cantor e compositor americano que sempre inspirou jovens e adultos do mundo inteiro com a mensagem das suas músicas. O que muita gente não sabe, no entanto, é que ele também pode ser considerado um profeta destas eleições. É certo que em 1975 Dylan não podia nem imaginar que o refrão da sua bela canção chamada ‘Sarah’ pudesse descrever tão bem um dos candidatos à vice-presidência dos Estados Unidos 33 anos mais tarde, mas ao ver de perto – mesmo que de costas – a governadora do Alaska, Sarah Palin, é dificil não ter a sensação que a musica descreve: ‘Sarah, Sarah, tão fácil de olhar, tão difícil de definir’. O titulo do disco - ‘ desire’ (desejo) -, expressa a vontade da republicana em sair do estado branco e chegar à Casa Branca.
Apesar dessas semelhanças com o Bob Dylan, porém, Sarah Palin parece ter buscado outras inspirações e preferiu seguir os passos de uma outra estrela: Madonna. Assim como a Pop Star quebrou vários tabus no inicio da década de 80 e se tornou uma figura extremamente controversa, Palin tem feito o mesmo na política, tendo sido a primeira governadora do estado do Alaska, e sendo a primeira mulher a concorrer na chapa presidencial do seu partido. Exatamente como a cantora, Palin também arrasta multidões para as arenas e geralmente vive nos extremos da opinião publica: ou as pessoas a amam ou a odeiam.
A única diferença entre as duas, no entanto, e que cada uma vê o mundo de maneira completamente oposta: a primeira rompe os tabus para se livrar deles e a segunda quebra os tabus para mantê-los. Madonna apóia Obama, e Palin, McCain.
Lucky Star
Faltando três dias para as eleições e buscando os importantes votos do colégio eleitoral da Carolina do Norte, Sarah Palin veio a Raleigh na tarde deste sábado e falou para milhares de pessoas que estavam ansiosas para vê-la de perto e ouvi-la por 20 minutos. Os que conseguiram entrar, receberam cartazes pintados à mão para mostrar na TV, os que ficaram de fora, perderam de conhecer a nova estrela da campanha.
Antes de a candidata subir no palco e começar o seu discurso, vários políticos falaram e deixaram a sua mensagem para os americanos que estavam ali presentes. A surpresa da noite, no entanto, foi o surgimento de um sósia legítimo do famoso ‘Joe the Plumber’, que falou em nome dos encanadores e de todas aquelas pessoas da classe média que possuem pequenos negócios. Seu nome, ‘Mike the Plumber’.
Como Joe deveria estar em outro canto do país fazendo campanha para os republicanos, os ‘marketeiros’ de McCain improvisaram um trabalhador local para falar em nome da categoria. Nos seus cinco minutos de fama, Mike disse que “ser um encanador é muito mais do que apenas sonhar”, e foi bastante crítico em relação aos democratas. No fim do seu discurso, ele mandou um recado para Obama: “tire as mãos do seu governo ganancioso do meu bolso!”. As pessoas vibraram, e ele virou estrela.
Material girl
De todos os fatores que estão em jogo nestas eleições, a economia com certeza é o que mais preocupa as pessoas, principalmente por conta da crise. Entre as faixas e cartazes mais comuns no evento estavam algumas que diziam, por exemplo, ‘não espalhe a riqueza’, ‘Obama vai pegar o dinheiro de Joe’ e ‘eu sou Joe the Plumber’.
No seu discurso, Palin garantiu que só McCain tem condições de salvar a economia do país e defendeu a diminuição dos impostos para motivar o crescimento. “Este é o pior momento possível para incrementar os tributos, e o nosso oponente quer fazer isso. Ele votou 94 vezes no senado para o aumento dos impostos. Obama é a favor de um governo mais influente, ele é socialista”, acusou. Segundo Palin, o papel do governo é “promover oportunidades, não sustentar as pessoas”.
Like a virgin
Além dos assuntos relacionados à economia e à cobrança de impostos, um dos pontos mais fortes da campanha republicana é a discussão das questões morais. Uma das características mais marcantes de Palin é a sua total intolerância ao sexo antes do casamento e, principalmente, ao aborto. Para ela, que ainda está perdendo a virgindade política – exatamente como Obama –, a vida, o país e os valores estão acima de qualquer coisa.
O único problema é que ela passa tanto tempo pregando discursos moralistas por todo o país, que esqueceu de informar à sua filha de 17 anos que ter relações sexuais com o namorado é, segundo ela mesma, um grande pecado. Talvez o fato de ser avó lhe dê experiência suficiente para entender que o dito ‘faça o que eu mando, mas não faça o que minha filha faz’ não deve ter tanto efeito assim.
American life
Pelo menos Bristol Palin não vai praticar um aborto. É isso o que os republicanos mais conservadores devem estar pensando, pois essa é uma das questões sobre a qual o partido é mais radical. Como os valores religiosos ainda são muito fortes na sociedade americana, muita gente votará em McCain não por conta da economia ou da guerra, mas sim pela sua oposição ao aborto, já que Obama considera a sua prática em alguns casos específicos.
Betty Elomary é uma dessas pessoas. De acordo com ela, o aborto e o casamento gay foram os temas com os quais ela se preocupou ao decidir votar em McCain. “Se eu votar em Obama, quando eu morrer e estiver em frente a Deus, ele não vai me perdoar porque vai dizer que eu contribuí com isso [a liberação do aborto e da união homossexual]”, justifica.
Quanto a George Bush, Betty acredita que ele tenha cometido alguns erros, mas afirma que “ele não é tão mal quanto as pessoas dizem, pois fez o máximo que pôde”. Apesar de defender a retirada gradual das tropas do Iraque, ela tem uma visão positiva sobre a invasão: “acho que os soldados têm que voltar para casa, mas não considero que a guerra tenha sido algo ruim, pois nesses oito anos não teve mais nenhum ataque terrorista. Se não houve nenhum atentado nesse tempo, então quer dizer que tem algo positivo nela”.
E exatamente sobre este tema, Palin foi bastante enfática no seu discurso: “a gente precisa de alguém que fale sobre a guerra e que não tenha medo de usar a palavra ’vitória’. McCain sabe como ganhar uma guerra e ele sempre colocou o seu país na frente. Vamos deixar as nossas tropas voltarem para casa honradas e vitoriosas”, defendeu.

Para finalizar a sua fala e convencer aqueles que já estavam convencidos, a candidata a vice-presidente enfatizou que o papel dos Estados Unidos no mundo ainda é o de liderança: “Carolina do Norte, a gente acredita que a América não é o problema, mas a solução! E eu agradeço a Deus que nós temos um homem preparado para isso e preocupado em liderar”.
Pretender
Porta de comício é um ótimo local para se ganhar dinheiro, e são estes os lugares que Anthony Paci tem freqüentado quase que diariamente desde as primárias no início do ano. Carregando broches, bonés e ursinhos de McCain e Palin, ele já percorreu 42 estados e mais de 70 mil quilômetros. Segundo o vendedor, há alguns meses ele deixou de ir aos eventos democratas e atualmente só comparece aos comícios republicanos.
Na conversa de cinco minutos, entre uma frase e outra, tudo indicava que o seu motivo maior para seguir McCain e Palin fosse ideológico, já que direcionava eventuais elogios aos dois. Quando perguntado sobre Sarah Palin, no entanto, ele não soube o que falar e resolveu encostar ao meu ouvido e dizer a verdade: “Eu apóio Obama, mas não posso falar isso em voz alta aqui”. Com certeza os eventos republicanos são mais rentáveis para ele…
Nobody’s perfect
No fim do comício, após ver e ouvir de perto o que Sarah Palin e as pessoas que a apóiam tinham a dizer, mudei um pouco de idéia sobre o que fala a canção de Bob Dylan. Ao entender de verdade o espírito da sua campanha e ao vê-la falar de costas ao público – mas de frente às câmeras –, acredito que a melhor forma de cantar aquela frase inicial seja: “Sarah, Sarah, tão fácil de definir, tão difícil de olhar”. Definição: conservadora convicta. Aparência: ainda não deu para saber. O que os americanos esperam, no entanto, é que, se eleita, nem ela nem McCain governe de frente apenas para algumas pessoas e de costas para o resto da população, que não poderá chorar por causa deles depois…